DIGI, a operadora romena que veio baralhar o mercado português

Mafalda Vieira Santos
Mafalda Vieira Santos
2 Abril 2026, 9:00
5 min tempo de leitura

Em novembro de 2024, uma operadora romena chegou a Portugal com preços que ninguém esperava. Pouco mais de um ano depois, o mercado das telecomunicações já não é o mesmo.

Durante anos, o mercado português de telecomunicações funcionou como um clube fechado. Portugal possuía um mercado tradicionalmente oligopolista, onde operadoras como a MEO, a NOS e a Vodafone dominavam as ofertas, com preços elevados e condições rígidas de fidelização que deixavam os consumidores sem grandes opções. Depois chegou a DIGI e as regras do jogo começaram a mudar.

Quem é a DIGI e como chegou a Portugal?

A DIGI não é uma estreante no setor. É uma operadora com quase 30 anos de história, com operações estabelecidas na Roménia, Espanha, Itália e Bélgica. Chegou ao mercado português em novembro de 2024, após a aquisição da Nowo, trazendo consigo um investimento superior a 400 milhões de euros e mais de 1.500 colaboradores contratados em Portugal, um sinal claro de que veio para ficar.

A estratégia era clara desde o primeiro dia: preços baixos, fidelizações curtas e simplicidade na oferta. A DIGI entrou em Portugal com tarifários móveis a partir de 4 e 5 euros por mês sem fidelização, e reduziu o período de fidelização na internet fixa dos habituais 24 meses para apenas 3 meses.

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O impacto imediato: as outras operadoras reagiram

A chegada da DIGI não passou despercebida aos concorrentes. A resposta do mercado foi quase imediata, mas calculada. As três grandes operadoras não fizeram grandes alterações nos tarifários principais, mas responderam através das suas marcas low-cost: a MEO tem a UZO, a NOS tem a WOO e a Vodafone tem a Amigo.

O regulador do setor reconheceu publicamente o impacto. Numa entrevista ao jornal Expresso, a presidente da ANACOM, Sandra Maximiano, afirmou que a operadora romena deu “um abanão” ao mercado, forçando os concorrentes a reduzirem preços e a criarem novas ofertas. Ainda assim, o efeito teve limites: em outubro de 2025, Portugal continuava acima da média europeia, sendo o 13.º país com a variação de preços mais elevada entre os 27 estados-membros da UE.

Os números do primeiro ano

A DIGI fechou o seu primeiro ano completo de atividade em Portugal com 850 mil serviços ativos: 471 mil números móveis e 159 mil clientes de internet fixa, dos quais 132 mil subscreveram também o serviço de televisão.

Na rede, os progressos são visíveis. A operadora conta agora com 4.600 estações 4G, das quais 2.600 têm cobertura 5G, com mais 500 estações previstas para 2026. Um dado que surpreende: no final de 2025, a DIGI ultrapassou a MEO no número de estações 5G em Portugal, e isto sem ainda garantir cobertura nacional.

De acordo com o barómetro anual da nPerf relativo a 2025, a DIGI Portugal alcançou mesmo a liderança no desempenho da internet fixa em Portugal.

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O que a DIGI lançou em 2025

O primeiro ano não foi apenas de crescimento, foi também de consolidação. Em 2025, a DIGI lançou a aplicação My DIGI para Android e iOS, que permite consultar consumos, pagar faturas e alterar tarifários diretamente no smartphone, e implementou pagamentos online e via Multibanco.

A operadora reforçou a grelha da DIGI TV com a entrada de canais como a SIC, a CMTV e a NOW, lançou uma nova velocidade de internet de 500 Mbps, novos tarifários pré-pagos e cartões eSIM, abriu as duas primeiras lojas de marca e chegou ao Metro do Porto.

Qual é a cobertura da DIGI atualmente em Portugal?

É provavelmente a pergunta mais frequente de quem está a ponderar mudar de operadora, e a resposta honesta é: depende de onde vives.

A rede móvel da DIGI cobre atualmente a grande maioria da população nas principais áreas urbanas do país em 4G, com a cobertura 5G ainda em expansão e concentrada sobretudo em Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e Leiria. Quem vive em zonas rurais ou menos densas pode ainda encontrar lacunas de cobertura, algo que a operadora reconhece e tem como prioridade resolver.

Na internet fixa, a rede de fibra da DIGI chega já a cerca de dois milhões de casas, maioritariamente nas grandes áreas urbanas. Ao contrário das incumbentes, que têm décadas de infraestrutura construída, a DIGI está ainda a expandir a sua própria rede, e isso reflete-se na disponibilidade geográfica.

Há ainda uma batalha por resolver em Lisboa: a DIGI prepara-se para iniciar negociações com a nova administração do Metropolitano de Lisboa para garantir cobertura em toda a rede, depois de já ter conseguido acesso às linhas vermelha e amarela.

A forma mais fiável de saberes se a DIGI já chegou à tua zona é verificar o mapa oficial de cobertura em digi.pt, onde podes consultar a disponibilidade morada a morada.

2026: sem aumentos de preços e mais expansão

Enquanto a concorrência sobe os preços, a DIGI tomou uma decisão que voltou a fazer barulho. “Não vamos aumentar os preços em 2026”, anunciou Emil Grecu, presidente executivo da DIGI Portugal, num encontro com jornalistas. “A estabilidade é muito importante para os nossos clientes. Queremos focar-nos em melhorar a qualidade da rede.”

Para 2026, o foco mantém-se na melhoria contínua dos serviços, na abertura de mais pontos de venda em todo o país, na expansão da fibra ótica e no reforço da criação de emprego.

O veredicto: revolução ou evolução?

A DIGI não transformou o mercado português de um dia para o outro — seria irrealista esperar isso. Mas obrigou os concorrentes a mexerem-se, trouxe fidelizações mais curtas como nova norma e provou que era possível ter internet em Portugal por valores até então impensáveis.

Nos pacotes que incluem internet fixa, televisão e um cartão móvel, a DIGI cobra 22€ por mês com 500 Mbps, 75 canais e 100 GB de dados móveis, enquanto a UZO, a WOO e a Amigo cobram o mesmo valor mas apenas com condições diferentes entre si.

Num mercado que estava adormecido, isso não é pouca coisa.