Porque é que o ecossistema de apps chinês é ao mesmo tempo brilhante e preocupante

Sven Rietkerk
Sven Rietkerk
11 Junho 2026, 10:50
7 min tempo de leitura
Traduzido e adaptado por Mafalda Vieira Santos.

Em Portugal, o Android e a Google são praticamente inseparáveis. Mas e se um dia tivermos de prescindir desta gigante tecnológica americana? Pode parecer uma tarefa impossível, mas durante uma recente viagem à China a convite da Shokz, percebi que é perfeitamente viável. Por lá, as aplicações, a navegação e os serviços online funcionam de forma completamente diferente daquilo a que estamos habituados.

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Sem serviços Google

Essa diferença vai muito além da simples ausência dos serviços da Google. Na China, grande parte do dia a dia gira em torno de duas aplicações: o WeChat e o Alipay. Estas plataformas transformaram-se em ecossistemas completos onde comunicas, pagas, navegas e fazes compras. E o melhor é que, na China, não precisas de mais nada além destas duas aplicações, pois através delas consegues abrir e usar mini-apps sem qualquer esforço.

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É um pouco como se dezenas de aplicações diferentes que usamos muito no nosso dia a dia tivessem sido reunidas numa única grande plataforma. A base do ecossistema Android chinês assenta precisamente na ausência da Google. O Google Search, o Gmail, o Google Maps, o Google Drive, a Google Play Store e outros serviços da marca são de difícil acesso no país. O Google Maps até funciona, mas é muito menos preciso, e os endereços ou outros dados simplesmente não batem certo na aplicação. Mais à frente, ficas a conhecer a alternativa chinesa.

WeChat é muito mais do que o WhatsApp

Muita gente descreve o WeChat como a versão chinesa do WhatsApp. Há um fundo de verdade nisso, mas a realidade é que vai muito além disso. Provavelmente, Mark Zuckerberg adoraria que o WhatsApp chegasse sequer perto do que o WeChat oferece.

O WeChat começou como uma simples aplicação de mensagens, mas evoluiu para uma plataforma tudo-em-um. Podes enviar mensagens, fazer videochamadas, partilhar fotos e ter conversas em grupo. Com o tempo, foram sendo adicionados pagamentos, lojas online, reservas, serviços empresariais e funções governamentais. Eu não cheguei a usar essas funções governamentais, mas a verdade é que, na China, o WeChat também serve de cartão de cidadão digital no dia a dia. Tudo está perfeitamente interligado.

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O Alipay evoluiu de app de pagamentos para super-app

A outra aplicação indispensável na China é o Alipay. Inicialmente, era apenas uma plataforma de pagamentos, tanto online como no mundo físico. Por trás dela está a gigante Alibaba, a mesma empresa detentora do AliExpress. Entretanto, a app cresceu e transformou-se numa plataforma gigantesca que vai muito além das transações financeiras.

Através do Alipay, podes pagar contas, usar transportes públicos, reservar hotéis e aceder a uma infinidade de outros serviços. A minha experiência com a app centrou-se sobretudo em chamar táxis e pedir comida num restaurante. No fundo, funciona como uma verdadeira carteira digital.

Por isso mesmo, não é fácil comparar o Alipay e o WeChat com o que conhecemos por cá. Sim, partilham funções com o PayPal, o Google Wallet ou o WhatsApp, mas a grande diferença é que serviços como o Google Maps, o Booking.com, a Uber e as plataformas de entrega de comida estão totalmente integrados nestes dois gigantes.

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O segredo está nas mini-apps

Essa integração acontece graças às mini-apps. Na prática, podes olhar para o Alipay e o WeChat como uma espécie de sistema operativo para outras aplicações. Dentro destas plataformas, consegues abrir apps secundárias para realizar tarefas específicas, como pedir comida ou chamar um táxi. Isto faz com que sejam uma mistura entre uma aplicação tradicional e uma página web. O grande trunfo é que nunca precisas de sair da app principal.

Se reparares bem, até uma rede social como o TikTok está embutida no Alipay. Curiosamente, o TikTok que tu e eu usamos diariamente não está disponível na China. Eles têm uma versão própria e distinta da app, que pouco tem a ver com a plataforma de vídeos a que estamos habituados.

Na China, a Uber chama-se DiDi

Outro excelente exemplo é chamar um táxi. É provável que já tenhas pedido uma viagem pela Uber, mas na China o processo é ligeiramente diferente. Lá, usas a mini-app DiDi. Podes descarregá-la como uma aplicação independente, mas ela também já vem integrada no Alipay. Como o Alipay exige que associes um cartão de crédito, a grande vantagem é que não precisas de repetir o processo para a DiDi. Tudo flui dentro da mesma plataforma, desde o momento em que chamas o carro até ao pagamento final.

A experiência de utilização é muito semelhante à da Uber, com a diferença de ser substancialmente mais barata. Uma viagem de meia hora por Shenzhen custa cerca de três euros na DiDi. Tenta lá conseguir um preço destes numa grande cidade em Portugal.

O Google Maps é inútil na China

A navegação segue uma lógica parecida. Como o Google Maps não funciona em condições, os chineses recorrem sobretudo a serviços como o Amap. Estas plataformas oferecem informações de trânsito em tempo real, rotas de transportes públicos, detalhes sobre restaurantes e dados de localização desenhados à medida do mercado chinês. Se alguma vez viajares para a China, recomendo vivamente esta app, pois mostra as rotas de forma muito mais clara e precisa do que o Maps.

A aplicação indica-te, por exemplo, qual é a faixa de rodagem mais rápida num dado momento. Naturalmente, também vês o tempo estimado de chegada e a tua velocidade. Mas há uma funcionalidade que devia chegar a Portugal o quanto antes: na China, a app mostra exatamente quantos segundos faltam para o semáforo mudar de vermelho para verde, ou vice-versa. Assim, nunca mais precisas de adivinhar quanto tempo vais ficar parado atrás de um camião.

Como seria de esperar, estes serviços de mapas e navegação estão frequentemente ligados de forma direta ao WeChat e ao Alipay. Se fizeres uma reserva num restaurante, a localização pode ser enviada automaticamente para a app de navegação, e a rota fica logo pronta a usar.

Queremos este modelo em Portugal?

Curiosamente, começo a ver muitas das funcionalidades que encontrei na China a surgirem por cá. Pensa, por exemplo, nos pagamentos integrados ou na facilidade de pedir comida num restaurante através da leitura de um código QR. A principal diferença é que, na China, depois de pedires, pagares e comeres, simplesmente levantas-te e vais embora. No início, a sensação é um pouco estranha, e custa-me a crer que isso se torne a norma em Portugal tão cedo.

Por outro lado, nota-se que a Meta está a tentar integrar cada vez mais serviços no WhatsApp, como é o caso do assistente de Inteligência Artificial que nos tem sido imposto. A grande questão é que, no Ocidente, ainda não estamos habituados a centralizar a nossa vida digital numa única super-app. Usamos uma aplicação diferente para cada tarefa, o que nos garante uma enorme liberdade de escolha. Não és obrigado a usar o WhatsApp, pois o Signal é uma excelente alternativa. Podes saltar entre o YouTube Shorts, o Instagram Reels ou o TikTok, dependendo do que te apetece ver. Mais importante ainda: o teu cartão bancário não tem de estar obrigatoriamente associado a um serviço como o WhatsApp ou o Google Maps. Nas plataformas chinesas, essa ligação é absolutamente indispensável.

No fundo, há bons argumentos a favor de ambas as abordagens. Ainda assim, por agora, a minha preferência recai sobre a liberdade de escolha que o ecossistema da Google nos continua a oferecer.

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