Os nossos smartphones estão cada vez mais cheios de funcionalidades de IA que não usas ou simplesmente não queres usar. Ultimamente, dou por mim a pensar: afinal, quem gosta realmente de IA? Quer fale com adolescentes, jovens na casa dos vinte ou pessoas mais velhas, noto pouquíssimo interesse. E eu próprio dou por mim a revirar os olhos quando ouço as marcas a prometerem, mais uma vez, uma “funcionalidade genial de IA que vai mudar o mundo”. A verdade é que isto já me começa a irritar. E a ti? Ficas entusiasmado com a enésima novidade de IA no teu telemóvel?
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Quem se interessa realmente pela IA?
Para que fique claro desde já, este artigo foca-se nas funcionalidades de IA de empresas como a Google e a Samsung, pensadas para o consumidor comum. Não esperes uma análise cheia de números ou estudos científicos sobre o impacto da inteligência artificial nas nossas vidas. Este é um texto escrito com base naquilo que sinto. Porque, enquanto gigantes como a Meta, a Samsung, a OPPO e a Google nos bombardeiam com as últimas novidades tecnológicas e as suas apresentações são agora compostas por 80 por cento de conversa sobre IA, a verdade é que, à minha volta, não ouço literalmente ninguém falar sobre o assunto.
Pior ainda, quando puxo o tema da IA, a resposta mais comum que recebo é um suspiro de cansaço. E isto não acontece apenas com os meus pais ou com colegas mais velhos, os meus próprios amigos reagem da mesma forma. Estamos a falar de um grupo bastante diversificado de pessoas, com idades compreendidas entre os 22 e os 67 anos, onde ninguém parece ter o mínimo interesse na inteligência artificial.
Cansados da IA
Para ser totalmente honesto, até eu já começo a ficar um pouco farto da IA. Basta abrires o Instagram para seres imediatamente bombardeado com vídeos gerados por computador. Já vi vezes sem conta aquele vídeo em que alguém corta uma lata de cola ao meio com uma faca. Ou aquelas publicações em que as pessoas filmam um dinossauro a passear no meio da rua e reagem com um “uau, que incrível e divertido…”.
E como se isso não bastasse, a Google aproveitou o evento I/O para anunciar uma nova funcionalidade para o Gemini que nos permite adicionar efeitos incríveis aos vídeos. Sinceramente, eu não quero isto. Não quero ver e, muito menos, usar. Dá uma vista de olhos no vídeo abaixo, partilhado pela própria Google. Porque é que alguém haveria de querer fazer isto? Se souberes a resposta, explica-me, por favor.
Cada vez mais inteligente
Para lá destas ferramentas “divertidas” que te deixam adicionar elementos criativos a fotografias e vídeos, a verdade é que a IA está a ficar cada vez mais inteligente. Na semana passada, a Google mostrou um exemplo de como o Gemini poderá, em breve, comprar bilhetes para concertos por ti, bastando que lhe dês essa instrução.
Mas, nos dias que correm, será que confias assim tanto na IA? Terias coragem de partilhar os dados do teu cartão de crédito e deixar que uma máquina comprasse bilhetes por ti? A inteligência artificial já absorve uma quantidade absurda dos teus dados pessoais e sabe cada vez mais sobre a tua vida, uma tendência que só tende a aumentar. Além disso, consome quantidades gigantescas de energia, o que obriga à construção de centros de dados massivos. Contudo, vamos deixar essa discussão de fora deste artigo.
A edição de fotografias
Façamos um pequeno parêntesis sobre a edição de fotografias. A IA já desempenha um papel importante nesta área há vários anos. Nos primeiros smartphones, a câmara já utilizava inteligência artificial para reconhecer cenários e melhorar automaticamente a imagem. Hoje em dia, essa “ajuda” é cada vez mais intrusiva, algo de que a Sony se orgulha bastante no seu novo Xperia 1 VIII. No exemplo abaixo, podes ver exatamente como a IA “melhorou” uma fotografia.
A inteligência artificial também tenta dar uma mãozinha na hora de fotografar com funcionalidades como o Camera Coach, sugerindo qual a melhor lente a utilizar ou onde te deves posicionar para obter o enquadramento perfeito. Pessoalmente, nunca sigo estas sugestões, tal como ignoro quase todas as funcionalidades de IA no meu telemóvel, e não conheço ninguém que o faça. E, convenhamos, com toda a razão. Não deveríamos ser nós a ter a criatividade necessária para captar uma boa fotografia? Especialmente para quem gosta de fotografia, a piada não está precisamente em explorar e procurar aquele ângulo original e inesperado? Pelo menos, quero acreditar que sim. E isto para não falar da transformação completa de imagens, mais uma proeza que a IA consegue fazer por ti, como podes comprovar abaixo.
Sou só eu ou isto é profundamente perturbador? Fonte da imagem: OPPO
Também tem os seus pontos positivos (mais ou menos)
Não me interpretes mal, a IA tem aspetos bastante úteis de que todos nós já tiramos partido. Pensa em ferramentas como o Circle to Search, o Audio Magic Eraser ou os resumos gerados por IA da Google. Nunca foi tão fácil e rápido obter uma resposta para qualquer dúvida. No entanto, há um grande senão: a resposta dada pela IA está, muitas vezes, errada, incompleta ou ambas as coisas. Além disso, os sites que produzem essa informação deixam de receber visitas e, consequentemente, perdem receitas, simplesmente porque a resposta já te é entregue de bandeja no ecrã, sem precisares de abrir qualquer página.
O que me incomoda verdadeiramente é o facto de as grandes empresas de tecnologia não pararem de falar em IA, IA e… o que era mesmo? Ah, pois, IA. Lançam uma funcionalidade de inteligência artificial atrás da outra, inundando as suas plataformas e os nossos telemóveis, na esperança de que vamos adorar e usar cada uma delas. A verdade é que ainda consigo escrever uma mensagem sozinho, muito obrigado. Não preciso de um Chat Assist, de um AI Reply ou de qualquer outra invenção do género. Redigir um e-mail, ler um artigo sem precisar que mo resumam ou planear as minhas próprias férias são tarefas que ainda consigo fazer perfeitamente.
No fundo, tudo isto apenas demonstra que há pouca inovação a nível de hardware. Como resultado, as marcas sentem a necessidade de nos atirar com cada vez mais tralha em forma de software e IA para compensar. Não concordas?
O que achas de tudo isto?
A minha mensagem final é simples: tu és criativo o suficiente para escrever uma mensagem com significado, tirar uma excelente fotografia, planear umas férias originais e editar os teus próprios vídeos. Percebo perfeitamente que certas funcionalidades de IA são ferramentas fantásticas para te apoiar no dia a dia. Sei que existem opções divertidas para explorar e que nos deixam maravilhados com os avanços tecnológicos, mas a linha devia traçar-se aí. Tu és humano, és criativo (mesmo quando achas que não) e és, acima de tudo, único. Exatamente aquilo que a inteligência artificial nunca poderá ser.


