Como o Journeymap organiza uma viagem sem “alucinar” como algumas IA que conhecemos

Mafalda Vieira Santos
Mafalda Vieira Santos
20 Agosto 2026, 17:03
6 min tempo de leitura

Quando se fala em inteligência artificial aplicada a viagens, a associação mais imediata é a modelos generativos como o ChatGPT ou o Claude, e ao risco de “alucinações”, ou seja, informação que parece correta mas que na realidade não existe. O Journeymap, app portuguesa de planeamento de viagens, funciona de forma diferente: os itinerários não são gerados por um modelo de linguagem, mas por algoritmos de otimização de rotas, o mesmo tipo de tecnologia usada, por exemplo, na logística de entregas.

A explicação é dos próprios criadores da app, Pedro Oliveira e Ana, em entrevista ao AndroidWorld.pt. Chega numa semana particularmente relevante para o projeto: o Journeymap está prestes a lançar a primeira cidade fora de Portugal, dando início à expansão para outros países europeus.

Quem está por trás do Journeymap

O Journeymap nasceu de uma situação do dia a dia. Ana, do Porto, planeou ao pormenor uma viagem a Lisboa para o namorado, piloto de aviação alemão, e mostrou esse plano a Pedro Oliveira, que na altura vivia em Lisboa. Foi a partir daí que os dois começaram a pensar em quanto tempo as pessoas gastam a planear uma viagem, e como esse trabalho acaba quase sempre a cargo de uma única pessoa dentro de um grupo.

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O Pedro trabalha na área da informática numa empresa de viagens, a Ana é hospedeira de bordo. Ao longo de cerca de dois anos, e sempre à distância, entre Lisboa, Coimbra, Porto, Basileia e Marraquexe, desenvolveram o Journeymap com um objetivo duplo: automatizar grande parte do planeamento e, ao mesmo tempo, criar uma espécie de diário digital de viagens, onde os utilizadores podem guardar, revisitar e partilhar os seus itinerários.

Como a app gera os itinerários

Ao contrário do que a associação a “inteligência artificial” pode sugerir, o motor que constrói os itinerários no Journeymap não é um modelo generativo. Segundo Pedro Oliveira, o processo assenta em algoritmos próprios de otimização, desenvolvidos especificamente para este problema, e funciona em duas fases.

Na primeira fase, o sistema divide os pontos de interesse de uma cidade em zonas geográficas a partir do centro, atribuindo a cada atração um grau de prioridade, as mais icónicas ou bem avaliadas têm um peso maior, e as consideradas obrigatórias têm sempre garantida a sua inclusão no roteiro.

Na segunda fase entra o motor de otimização de rotas, construído com a biblioteca OR-Tools da Google, a mesma abordagem de investigação operacional usada, por exemplo, na otimização de rotas de entregas. O sistema calcula os tempos de deslocação entre pontos, verifica horários de funcionamento e procura a sequência que minimiza o tempo total gasto em trajetos.

O número de dias de cada roteiro também não é fixo: depende da quantidade de pontos de interesse disponíveis em cada cidade. Uma cidade com menos locais para visitar gera itinerários mais curtos, enquanto uma cidade com mais opções permite roteiros mais longos.

É esta base de regras e dados concretos que, segundo Pedro Oliveira, afasta o Journeymap do risco habitualmente associado à IA generativa:

“Não estamos perante o mesmo tipo de risco associado a um modelo de linguagem que pode gerar uma informação aparentemente correta, mas que na realidade não existe. No Journeymap, o processo de geração do itinerário é essencialmente uma questão de otimização : o sistema procura calcular a melhor forma de organizar as visitas tendo em conta todas estas restrições.”

A qualidade e atualização da informação sobre os destinos fica a cargo de Ana, que é responsável por essa componente de conteúdo. E o objetivo final, resume Pedro Oliveira, vai além de apresentar uma simples lista de sítios a visitar:

“O objetivo é que o utilizador não receba apenas uma lista de locais para visitar, mas sim um plano de viagem coerente, pensado para poder ser seguido na prática no dia a dia.”

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O papel do Mappi e o controlo do utilizador

Isto não significa que o Journeymap prescinda de IA generativa em todo o lado: é o caso do Mappi, o assistente de viagem da app, disponível através de uma interface de chat. Ao contrário do motor de itinerários, o Mappi funciona com base num modelo de linguagem generativo, combinado com os dados e funcionalidades do próprio Journeymap,  cada função usa a tecnologia mais adequada ao problema que resolve.

Na prática, isto permite ao utilizador conversar com o Mappi para tirar dúvidas sobre a cidade, pedir recomendações de locais a visitar, procurar sugestões próximas de um determinado ponto ou pedir ajuda para se deslocar entre diferentes locais, entre outras funcionalidades. A ideia, segundo Pedro Oliveira, é que o Mappi acompanhe o utilizador em diferentes momentos, desde o planeamento e edição do itinerário até à própria viagem, permitindo obter respostas de forma mais natural, sem ter de procurar manualmente essa informação na aplicação. Por exemplo, o utilizador pode pedir recomendações de museus ao Mappi e, caso goste de alguma sugestão, adicioná-la diretamente ao plano, mantendo sempre o controlo total sobre o que inclui no itinerário.

O itinerário gerado automaticamente pelo motor de otimização, por sua vez, também não é definitivo: pode ser editado a qualquer momento, com possibilidade de adicionar ou remover locais e reorganizar visitas. Para quem prefere não depender de nenhum algoritmo, o Journeymap permite ainda criar um plano de viagem totalmente manual.

Journeymap Planeador de Viagem
Journeymap Planeador de Viagem
Journeymap Planeador de Viagem
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Cobertura atual e expansão internacional

O Journeymap arrancou por Portugal Continental, Açores e Madeira, uma escolha natural para os dois fundadores, ambos portugueses, que quiseram consolidar a aplicação no território que melhor conhecem antes de expandir. Desde então, novas cidades têm sido acrescentadas, algumas por sugestão dos próprios utilizadores, como Amarante e Silves.

A próxima etapa chega já esta semana: segundo Pedro Oliveira, o Journeymap vai lançar Cracóvia, na Polónia, a primeira cidade fora de Portugal, dando início à expansão para outros países europeus. Os fundadores dizem querer fazer esse processo de forma gradual, mantendo a mesma qualidade de experiência construída em Portugal. E já têm recebido sugestões de utilizadores sobre que cidades internacionais incluir.

O que convém saber antes de instalar

A cobertura concentra-se, para já, nas cidades portuguesas disponíveis, algo que deverá mudar com a expansão internacional anunciada. A app inclui anúncios e disponibiliza compras integradas para quem quiser desbloquear funcionalidades adicionais.

Sendo ainda uma app recente, o Journeymap está numa fase inicial de crescimento, tanto ao nível de utilizadores como da componente social de partilha de planos entre a comunidade. É precisamente por estar neste momento de expansão, com a chegada da primeira cidade internacional, que se torna um projeto interessante de acompanhar nos próximos tempos.

O lema da app resume bem essa ambição: “Planeia menos. Vive mais.”

Journeymap Planeador de Viagem

pedrooliveira