Análise Motorola G77: apanhado pelo próprio sucesso

Jelle Passchier
Jelle Passchier
21 Julho 2026, 13:59
10 min tempo de leitura
Traduzido e adaptado por Mafalda Vieira Santos.
6.5

Avaliações

O Motorola G77 é como uma aranha desajeitada que tece a própria teia. Anda muito ocupada a tentar conquistar o seu espaço, mas acaba por ficar presa nos fios que criou. Enquanto este telemóvel se apresenta como uma escolha acessível e sólida, está rodeado por modelos mais antigos e com preço reduzido, incluindo da própria Motorola. São telemóveis que outrora foram mais caros, mas que agora oferecem melhores especificações pelo mesmo preço. O G77 está mesmo preso na sua própria teia…

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Motorola G77

O Motorola G77 tem a vida difícil. Na faixa de preço em que se encontra, a concorrência é feroz e abundante. Não é uma concorrência qualquer. Falamos de dispositivos que, graças a descidas de preço, passaram a competir diretamente neste segmento e que, na prática, são claramente superiores ao G77. Ou seja, o G77 já nem sequer consegue ser uma alternativa real para eles. Já mencionei que a concorrência é muita?

Se olhares para o marketing e para a página de produto da própria Motorola, tens a sensação de que até a fabricante não sabe bem como posicionar o G77 no mercado. Destacam pontos como um sistema de câmaras de referência, uma bateria de longa duração, um toque de luxo e um ecrã nítido, vivo e brilhante. Infelizmente, destes quatro pontos, só um é que considero genuinamente uma vantagem.

Estás curioso para saber qual é esse ponto e o que penso do G77 no geral? Então continua a ler esta análise bem quente e de espírito estival.

O que vem na caixa?

  • O próprio telemóvel
  • Capa (silicone)
  • Cabo USB-C
  • Manual e garantia

1. A bateria é excelente

A autonomia da bateria é, sem dúvida, o ponto mais forte do G77. Com os 5200 mAh, uma capacidade que nem sequer é excecional, consegui facilmente dois dias de utilização. É provável que a interface limpa do Android e o processador eficiente também contribuam bastante para isto. Na hora de carregar, os 30W são, infelizmente, pouco impressionantes.

2. Android com extras úteis

Na minha análise ao Motorola Edge 70 Pro, já tinha tecido grandes elogios à Hello UI, a interface que a Motorola coloca sobre o Android. Para o G77, a história é, no essencial, a mesma. Na altura, escrevi o seguinte:

A base é o Android puro, mas o dispositivo inclui algumas funções e opções de personalização. Pensa em temas e efeitos para o ecrã inicial. Os gestos Moto também marcam presença. Infelizmente, tudo isto vem acompanhado de algumas apps pré-instaladas e bloatware. Podes ler mais sobre isso mais abaixo, nos pontos negativos do Edge 70 Pro. No geral, estou satisfeito com a abordagem de software escolhida pela Motorola. No Edge 70 normal, a experiência ainda parecia um pouco desatualizada, mas as atualizações mais recentes resolveram grande parte do problema.

Um smartphone encostado a um sofá de tecido castanho, exibindo o ecrã inicial com vários ícones de aplicações e um fundo colorido.

3. Design resistente à água

Olhando para o exterior do G77, vemos um telemóvel tipicamente Motorola. Cantos arredondados, módulo de câmaras quadrado no canto superior esquerdo e um acabamento distinto na parte traseira. Trata-se de um smartphone construído inteiramente em plástico, deixando o ecrã de parte, claro. Ainda assim, a Motorola voltou a garantir um tratamento especial a este material. Desta vez, a superfície imita pele sintética, tanto na aparência como ao toque.

O resultado é um telefone agradável de segurar, embora nesta faixa de preço já existam smartphones com materiais mais nobres, como o vidro. O G77 é, de cima a baixo, feito de plástico e isso nota-se. O ponto positivo é a certificação IP64. Isto significa que o telefone aguenta uma chuva passageira e é totalmente resistente ao pó.

4. Política de atualizações

Há algo de curioso na política de atualizações do G77, e no bom sentido. O G77 recebe exatamente o mesmo número de atualizações e melhorias que o Edge 70 Pro. É uma situação um pouco dolorosa para quem tem o Edge 70 Pro, que é ligeiramente mais caro. Na verdade, a política de três atualizações de Android e cinco anos de patches de segurança foi um ponto negativo nesse modelo. No G77, por ser mais barato, já consideramos suficiente.

1. Sistema de câmaras de referência?

Na parte de trás do G77 encontramos três duas câmaras. A terceira “câmara” é, na verdade, um sensor de luz ambiente colocado ali sobretudo por razões de marketing. Visto de fora, parece mesmo que o telemóvel tem três lentes, mas na realidade são apenas duas. Como diria o rapper Ice-T: “You little fake-ass b*tch!”

O sensor de luz tem uma utilidade praticamente nula. As duas câmaras reais são as seguintes:

  • Câmara principal de 108 MP, f/1.7, tamanho do sensor 1/1.67’’
  • Câmara grande angular de 8 MP, f/2.2, ângulo de visão de 119 graus

Luz imperfeita? O drama

Se quiseres tirar boas fotos com o G77 em interiores, à noite ou com o tempo encoberto, prepara-te para um verdadeiro desafio. Assim que a luz deixa de ser ideal, a qualidade das imagens cai a pique. As fotos ficam sem vida, ganham rapidamente aquele grão típico de telemóveis antigos e é muito fácil obteres uma imagem tremida. Em tudo se nota que estás a fotografar com um telemóvel barato.

Em condições de luz perfeitas, as fotos não são más para um telemóvel de 239 euros. No entanto, também não as classificaria como boas. Os detalhes mais finos perdem-se, as cores nem sempre são consistentes e a profundidade de campo é quase inexistente, o que faz com que as imagens pareçam rapidamente planas.

Vês como o pica-pau se esforçou?

Modo retrato

Profundidade encontras, claro, quando usas o modo retrato. É funcional, mas também aqui não deves esperar demasiado. O telemóvel tem consistentemente dificuldade em enquadrar bem o desfoque. Além disso, o nível de detalhe nas fotos diminui ainda mais neste modo.

Zoom sem perdas

Graças ao recorte do sensor, é possível utilizar um zoom sem perdas (lossless) com uma ampliação de 3x. Em termos simples, a câmara recorta a zona central dos 108 MP para aproximar a imagem. No G77, o resultado são fotografias de 12 MP. Tendo em conta as limitações da câmara principal, o resultado até é razoável. O detalhe nas fotos não é extraordinário, mas esta distância focal é, pessoalmente, a que mais gosto de usar para fotografia urbana. É positivo ver que a Motorola investiu algum esforço para tornar a função de zoom 3x o melhor possível.

Se quiseres aproximar ainda mais a imagem, até 10x em zoom digital, há algo que entra em ação. São duas letras que aparecem cada vez mais em todo o lado e das quais começo a ganhar uma certa aversão: IA. O resultado é uma camada pesada de nitidez artificial que, francamente, não acho nada bonita.

Da esquerda para a direita: grande angular, câmara principal (zoom 1x), câmara principal zoom 3x (zoom sem perdas), câmara principal zoom 10x

2. Ecrã difícil de ler ao sol

O ecrã do G77 não tem nada de errado em si. Trata-se de um painel AMOLED de 6,78 polegadas com uma taxa de atualização de 120 Hz. No entanto, o pico de brilho fica-se pelos 1050 nits, o que é bastante baixo para os padrões atuais. Sob luz solar direta, a leitura do ecrã deixa mesmo a desejar. E como o período em que testei o G77 coincidiu com dias de sol intenso e muito calor, isso saltou-me logo à vista.

O ecrã pode atingir picos de 5000 nits, mas apenas com conteúdo HDR específico

Smartphone com o ecrã ligado sobre uma mesa de madeira ripada, exibindo vários ícones de aplicações e um widget de relógio.

3. Não é o mais rápido

O chip MediaTek 6400 é o motor do G77. Este processador de gama baixa consegue manter o dispositivo a funcionar de forma fluida, mas o G77 está longe de ser um campeão de velocidade. Se usas o smartphone principalmente para ver notícias, navegar em sites e enviar mensagens no WhatsApp, o G77 é suficientemente rápido. Mas se fores um pouco mais exigente, como tirar muitas fotos, jogar ou abrir várias aplicações em simultâneo, então este telemóvel não vai ter a rapidez de que precisas.

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4. Bloatware

Pode parecer um pouco estranho, mas vou citar-me a mim próprio nesta análise. São palavras que escrevi sobre o bloatware do Edge 70 Pro, mas que se aplicam na perfeição a este G77:

Há, no entanto, uma coisa que me irrita profundamente: o bloatware. Para começar, o telemóvel vem de fábrica com dezenas de aplicações que não pedi, como o FIFA Heroes, Bubble Shooter, Sudoku e Solitaire. Podes desinstalá-las, mas, na minha opinião, a Motorola podia cobrar um pouco mais pelos seus telemóveis e simplesmente não as pré-instalar.

Em segundo lugar, e aqui é onde fica mesmo irritante, o menu de aplicações mostra-te sugestões de apps para descarregar. Não consegui remover isto e EU NÃO QUERO ISTO. Cada vez que abro o menu, está lá a mesma aplicação no topo, a incomodar-me com a sua grande seta azul de download…

5. Fotos que por vezes não ficam guardadas

E depois havia algo que não tinha encontrado nos anteriores telemóveis da série X: de vez em quando, uma foto simplesmente não ficava guardada. Às vezes não acontecia nada, outras vezes a imagem só aparecia se fosses às entranhas da gestão do dispositivo procurar nas fotos armazenadas internamente. Parece um pormenor, mas imagina: pensas que captaste uma foto incrível e, mais tarde, descobres que simplesmente desapareceu. Isso chateia mesmo.

Conclusão

O Motorola G77 não me convenceu em quase nenhum aspeto. Em tudo se sente que estamos perante um telemóvel barato, e sim, é mesmo isso que ele é. Ainda assim, há muitas outras opções no mercado que fazem melhor. Por volta dos 225 a 250 euros, podes começar por explorar outros modelos da própria Motorola. Olha, por exemplo, para os smartphones do ano passado da linha Edge, como o Edge 60 Neo ou o Edge 60 Fusion. Têm um aspeto mais sofisticado e uma sensação de qualidade claramente superior. O Nothing Phone (3a) é também uma boa alternativa se procuras um smartphone único por este valor. Se o que queres é um desempenho muito mais rápido na mesma gama de preços, então o POCO X8 Pro é um modelo a considerar.

E se tiveres uma margem um pouco maior no orçamento, por volta dos 275 euros consegues comprar o Samsung Galaxy A37, um smartphone muito sólido que não falha em nenhum aspeto crucial.

Algo que, infelizmente, não se pode dizer do G77. As câmaras, o ecrã e a qualidade de construção ficam aquém, mesmo para um smartphone na faixa dos 250 euros. E estão muito longe de justificar os 349 euros que a marca pedia originalmente. Nem a boa bateria nem o software agradável conseguem compensar estas lacunas, especialmente quando podes optar por um dos modelos da linha Motorola Edge que mencionei acima. O G77 não é um mau telemóvel em si, o problema é que se encontra numa faixa de preço muito difícil, onde existem alternativas bem melhores prontas para saltar para o teu bolso.

Motorola G77 pontos positivos

  • Boa autonomia de bateria
  • Software agradável
  • Política de atualizações razoável

Motorola G77 pontos negativos

  • Câmaras medíocres
  • Ecrã difícil de ler ao sol
  • Bug estranho nas fotos
  • Não é o telemóvel mais premium da sua classe
  • Bloatware

Comprar o Motorola G77

O G77 está disponível a partir de 239 euros, nas cores Black Olive ou Shaded Spruce (um tom de azul).