As grandes gigantes tecnológicas, como a Google e o Facebook, mantêm os olhos bem abertos para o que se passa na China. O motivo? O sucesso estrondoso de “super-apps” como a WeChat. Estas plataformas concentram toda a vida digital num único sítio — o que significa, inevitavelmente, que os dados dos utilizadores também ficam centralizados numa única “caixa forte”.
A ‘super-app’
A internet enriqueceu enormemente a nossa vida, mas existe um lado sombrio nesta paisagem digital: as grandes empresas que registam absolutamente tudo. A Google é o exemplo perfeito disto. O que começou como um simples motor de busca, cresceu até se tornar o colosso que é a Alphabet.
Esta empresa-mãe não gere apenas o maior motor de pesquisa do mundo, mas também o sistema operativo Android, o Google Maps e o YouTube. A Google está tão enraizada na tua rotina diária que, se amanhã anunciasse que está a trabalhar numa “super-app” para unificar tudo, ninguém ficaria propriamente surpreendido.
O conceito de uma aplicação que faz tudo (a tal “super-app”) ainda é relativamente estranho no Ocidente, mas ganhou notoriedade quando Elon Musk comprou o Twitter e o rebatizou de X. O objetivo dele era claro: criar uma plataforma única para tudo o que precisas no dia a dia. Imagina conversar, ver vídeos, fazer pagamentos e gerir as redes sociais, tudo na mesma interface. Embora Musk esteja a ter as suas dificuldades, este modelo já é uma realidade antiga na China com a WeChat, que define o padrão para a comunicação e o comércio digital no país.
WeChat como o Santo Graal
Na China, a WeChat (Weixin, da Tencent) é muito mais do que um serviço de mensagens como o WhatsApp. É, na verdade, o coração pulsante da vida digital, com funcionalidades para reuniões de negócios, vídeos curtos, jogos e um sistema financeiro totalmente integrado.
No fundo, nunca precisas de sair da aplicação para tratar dos teus assuntos diários. Para as tecnológicas ocidentais, isto é uma espécie de Santo Graal: uma plataforma onde os utilizadores ficam “presos” o dia inteiro, o que oferece vantagens brutais em termos de receitas publicitárias e recolha de dados.
Várias empresas tentaram copiar este sucesso chinês no Ocidente, mas a verdade é que ainda ninguém conseguiu. A Meta tentou com o Facebook e o Instagram, adicionando o Marketplace e o Meta Pay, mas estas funcionalidades nunca se tornaram essenciais para o grande público. Também a OpenAI parece querer um papel central com o ChatGPT, mas enfrenta os seus próprios desafios financeiros.
A Google, no entanto, tem uma posição de partida única. Com serviços como o Gmail, o Google Wallet e o Maps, a gigante da publicidade já tem todas as peças do puzzle nas mãos.
A Google como super-app
Podes argumentar que a Google não está a aproveitar todo o potencial da sua aplicação principal (simplesmente chamada Google). Mas isso pode mudar no futuro. Se a empresa conseguir integrar perfeitamente todos os seus serviços populares nessa única aplicação, nasce a versão ocidental da super-app.
A introdução de resumos de Inteligência Artificial (IA) diretamente nos resultados de pesquisa é um sinal claro: a Google quer que fiques na página dela em vez de clicares para outros sites. Desta forma, mantém o controlo total sobre o teu comportamento online.
O poder que a Google já detém é difícil de quantificar. Para muitas empresas, uma posição elevada nos resultados de pesquisa é uma questão de sobrevivência. Uma única alteração no algoritmo pode fazer ou destruir um negócio — e quando isso acontece, muitas vezes ninguém percebe porquê.
Além do motor de busca, a Google domina com o Chrome (o navegador mais popular) e com o Android (o sistema móvel mais utilizado). Até a Apple depende fortemente da tecnologia da Google para o futuro da Siri, o que sublinha a hegemonia da empresa.
Enorme risco de privacidade
É preocupante que já nos tenhamos habituado tanto ao papel da Google como a “porteira” da internet. A questão que se impõe é: queremos realmente que esta mesma empresa gira também a nossa única super-app, tal como acontece com a WeChat na China?
A Google já sabe onde moras, o que compras, que vídeos vês e até quando estás doente. Quer queiramos, quer não, o caminho para a dominação total parece pavimentado. Talvez a União Europeia ainda tenha uma palavra a dizer sobre isto — mas isso não impede a Google de fazer os seus planos.
As maiores preocupações de privacidade giram em torno da enorme concentração de dados pessoais numa única entidade. Ao fundir todos os serviços numa super-app, a empresa obtém uma visão completa da tua vida digital sem que tu alguma vez saias do ecossistema. Esta “fome” de dados, combinada com o poder de porteira da web, torna o abuso ou a manipulação invisível através de algoritmos um risco real. Uma aplicação destas pode parecer conveniente, mas, na realidade, deveria ser um pesadelo de privacidade capaz de te tirar o sono.
