Fairphone: ‘Os preços da RAM dificultam a manutenção da eletrónica de consumo acessível’

Sven Rietkerk
Sven Rietkerk
19 Dezembro 2025, 8:44
7 min tempo de leitura
Traduzido e adaptado por Mafalda Vieira Santos.

A Samsung, a Google, a OnePlus e, na verdade, quase todas as outras marcas optam por lançar vários produtos novos todos os anos. Existe apenas uma empresa que contraria totalmente esta tendência: a Fairphone. A empresa holandesa, sediada em Amesterdão, recebeu a nossa visita para uma conversa com a CTO, Chandler Elizabeth Hatton. Falámos sobre a posição única da empresa, a influência da inteligência artificial e a concorrência feroz neste setor tecnológico.

A IA não é uma moda passageira, mas também não é um fim em si mesma

Quer queiras, quer não, vais ter de lidar com a inteligência artificial (IA). No início deste ano, a Fairphone já tinha partilhado a sua visão sobre esta tecnologia, mas vamos mergulhar um pouco mais fundo no tema.

“Não é que sejamos contra a IA. Vemos que tem muitas aplicações importantes, úteis e interessantes.” Portanto, para a Fairphone, a IA não é uma ‘hype’ temporária, mas sim uma evolução tecnológica que veio para ficar. “A IA vai continuar por cá”, afirma Hatton.

Ao mesmo tempo, a Fairphone quer evitar adicionar funcionalidades de IA apenas porque o mercado o espera. O foco está em aplicações que acrescentem valor real para nós, utilizadores. “Isso não significa que os nossos clientes não possam esperar uma boa experiência de IA”, explica a CTO, “mas é algo pensado com muito cuidado.”

Hatton sublinha que a Fairphone olha explicitamente para o longo prazo. “Os processadores não devem apenas suportar as funcionalidades de IA de hoje, mas também as dos próximos cinco a sete anos.”

Chandler Hatton

A Google desempenha aqui um papel crucial e, naturalmente, a Fairphone trabalha em estreita colaboração com a gigante tecnológica. “O Android é, obviamente, a nossa primeira escolha”, até porque a Google dispõe de modelos “nos quais muitas partes estão atualmente interessadas.”

Ainda assim, a Fairphone mantém-se crítica quanto ao impacto mais vasto da IA. Preocupações como o consumo de energia, a cadeia de abastecimento e as implicações éticas de funcionalidades de software que interferem profundamente no teu uso diário continuam a ser prioritárias.

Preços a subir: um desafio também para a Fairphone

Todo o setor tecnológico está atualmente a lidar com aumentos significativos nos preços dos componentes e a Fairphone não é exceção. Nos últimos tempos, os preços da memória RAM dispararam, algo que não passou despercebido à CTO. “A RAM subiu cerca de 50 por cento no último mês. Com oscilações destas, manter a eletrónica de consumo a preços acessíveis é um verdadeiro quebra-cabeças.”

Apesar destes aumentos, a Fairphone não prevê consequências diretas para os clientes a curto prazo. Isto deve-se ao facto de a empresa se apoiar fortemente em parcerias duradouras com os seus fornecedores. “Temos muitas colaborações de longo prazo, construídas com base na criação de valor sustentável”, explica Hatton. “Graças a este foco na sustentabilidade e numa vida útil longa, a Fairphone continua a distinguir-se, mesmo quando o mercado está agitado.”

O próximo passo é crescer

Hatton indica que as coisas estão a correr bem e que a quota de mercado continua a subir. Com isto, a empresa está lentamente a sair do seu nicho, conseguindo ter cada vez mais impacto em toda a indústria. O próximo passo lógico é escalar. Tanto na Europa como, mais recentemente, nos Estados Unidos.

“Acabámos de arrancar lá”, conta a CTO, “e as primeiras reações têm sido extremamente positivas.”

De momento, apenas os produtos de áudio da marca estão disponíveis nos EUA, sendo que os smartphones poderão chegar mais tarde. “É muito mais simples introduzir dispositivos de áudio do que telemóveis. Isso deve-se à forma como a certificação e a colaboração com as operadoras estão organizadas.” Ainda assim, a Fairphone vê oportunidades, impulsionadas pela crescente atenção à legislação sobre o ‘direito à reparação’ nos EUA. “Isso faz com que a procura por tecnologia sustentável esteja a aumentar.”

Duas partes de um smartphone desmontado: um ecrã e um corpo com bateria Fairphone

À medida que a conversa avança, o grande objetivo da Fairphone é reiterado várias vezes: provar que o seu modelo não serve apenas para um pequeno público idealista, mas que é aplicável em grande escala. “Não queremos ser aquela empresa que faz tudo de forma diferente só porque somos pequenos”, confessa Hatton. “A nossa ambição é tornar a sustentabilidade e a ética viáveis para as massas.”

O ADN da Fairphone

O núcleo da filosofia da Fairphone continua a ser a longevidade dos produtos. A ideia é encorajar-te a usar o teu dispositivo durante anos a fio. A CTO sublinha: “O dispositivo que compras hoje é o mesmo que queremos que continues a usar amanhã.” Talvez já saibas que a empresa vai continuar a dar suporte ao Gen 6 até bem depois de 2030. “Esperamos que os nossos clientes possam usar os smartphones durante pelo menos cinco anos, mas de preferência ainda mais.”

A construção modular desempenha aqui um papel fundamental. Componentes como baterias, câmaras e outros elementos são substituíveis. No passado, a Fairphone experimentou pacotes de atualização (como no Fairphone 3 e 3+), onde o módulo da câmara podia ser melhorado. Esse conceito foi recentemente aplicado aos Fairbuds XL, para os quais foi anunciado um kit de atualização com novos drivers, disponível no primeiro trimestre de 2026.

Nos smartphones, a história é mais complexa. “Seria fantástico poder fornecer atualizações de hardware para os telemóveis, mas nem sempre é viável. Temos de garantir suporte a longo prazo e isso, por vezes, exige componentes novos de raiz.”

Por isso, não esperes ver tão cedo no mercado ‘kits’ para instalar um processador novo no teu Gen 6. “A prioridade está na fiabilidade e no uso prolongado, não em forçar upgrades anuais.” Quando um dispositivo atinge finalmente o fim da sua vida útil, o foco muda para a reciclagem: “Materiais e energia devem ser reutilizados para que o impacto ecológico seja o menor possível.”

O teu feedback é crucial

A Fairphone valoriza imenso a opinião de quem usa os seus produtos. Hatton menciona que as análises de jornalistas e utilizadores são essenciais. “É assim que descobrimos pontos cegos e podemos melhorar diretamente.” O feedback sobre o software do Gen 6, por exemplo, foi imediatamente abordado pela equipa, resultando em melhorias concretas. “Ouvimos com muita atenção a nossa comunidade.”

Outro exemplo é a evolução dos auscultadores da marca. “Todo o conhecimento adquirido foi usado para aperfeiçoar os Fairbuds XL. Concretamente, o conforto de utilização, a afinação do som e o design foram ajustados com base em experiências anteriores”, conta Hatton.

Fairbuds XL (2025) na caixa
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Esta abordagem é, no fundo, a essência da Fairphone. “Queremos criar produtos que as pessoas continuem a usar, em vez de lançar novidades anuais sem um valor acrescentado claro.”

Holandeses ‘teimosos’

Apesar dos desafios, a Fairphone atravessa um período forte. A empresa teve, segundo a própria, o seu melhor trimestre de sempre. Embora os números financeiros exatos ainda não tenham sido publicados, a CTO garante que o crescimento é considerável. “Já alcançámos mais de um por cento de quota de mercado na Holanda e em França”, revela.

“As grandes oportunidades estão em mercados maiores como a Alemanha e a França, mas a Holanda é particularmente importante para nós.” Segundo Hatton, os holandeses são extremamente críticos em relação às empresas do seu próprio país. “É muito difícil convencer o mercado holandês; ser crítico está no nosso ADN.”

Mas a Fairphone mantém o rumo. “A nossa missão é levar a sustentabilidade e a ética a uma escala global. Numa indústria conhecida por ser implacável, queremos provar que é possível uma abordagem diferente. Não como exceção, mas como o novo padrão.”