O Gmail é aquela aplicação que a maioria dos utilizadores Android usa há anos sem pensar duas vezes. Raramente paramos para ver se a “galinha da vizinha” é mais gorda. Mas a verdade é que o serviço de email da Google, apesar de omnipresente, tem uma margem de crescimento considerável e, honestamente, já merecia alguma atenção.
A conveniência do Gmail
A minha conta pessoal do Gmail deve ser uma das coisas mais antigas a que ainda tenho acesso na internet. Em todo este tempo, nunca ponderei seriamente mudar de serviço, mesmo com as eternas questões sobre a privacidade da Google. Só de pensar na dor de cabeça que seria alterar o meu endereço de contacto em dezenas de outros sites, perco logo a vontade. É uma tarefa hercúlea que prefiro evitar.
Dito isto, não significa que não tenha críticas ou que esteja sempre satisfeito com o serviço. A escolha de continuar, no fundo, é feita puramente por uma questão de comodismo.
Liberdade para personalizar (ou falta dela)
Vamos ser francos: em certos aspetos, o Gmail deixa muito a desejar. É curioso ver a Google a apostar todas as fichas na personalização com o Android, mas a esquecer-se de aplicar essa mesma filosofia à aplicação do Gmail.
Olha para a barra de navegação, por exemplo. Ocupa um espaço precioso no ecrã para apenas dois botões principais: a lista de emails e o atalho para o Google Meet. A Google quer promover o seu serviço de vídeo, certo, mas forçar aquele botão numa posição tão nobre parece um desperdício de espaço, especialmente se, como muitos de nós, raramente usas essa função diretamente a partir do email.
É verdade que podes desativar o botão do Meet, mas a opção está tão enterrada nas definições da aplicação que imagino que a maioria nem saiba que é possível. O cenário ideal? Poderes personalizar a barra de navegação totalmente a teu gosto. Imagina teres atalhos rápidos para emails enviados, mensagens com estrela, emails agendados ou até uma ligação direta para uma pasta específica que criaste. Isso sim, seria o paraíso da produtividade.

Outra oportunidade perdida diz respeito aos separadores de categorias (Principal, Promoções, Social, etc.). Neste momento, é aquilo e ponto final; não podes mexer. Pessoalmente, tenho saudades da ousadia do extinto “Inbox by Gmail”, onde podias personalizar os separadores à tua maneira.
Poder adicionar nomes ou termos personalizados — por exemplo, para assuntos de Natal, trabalho ou hobbies — melhoraria drasticamente a organização. Encontrarias o que procuras num instante, simplesmente porque foste tu quem definiu as regras do jogo.
O design precisa de uma demão de tinta
Para além da necessidade de mais personalização funcional, a interface do Gmail carece de uma aparência visual moderna e fluida. E isto aplica-se tanto à aplicação móvel como à versão para computador.
O menu lateral na app, que contém todas as categorias, etiquetas e definições, é atualmente uma lista interminável e um pouco caótica. Há pouca separação visual ou agrupamento lógico, o que faz com que tudo pareça desarrumado. Sim, podes atribuir cores às etiquetas, mas essa é praticamente a única distinção visual sobre a qual tens algum controlo.
Ao Gemini não há como fugir
E já que não podemos escapar à Inteligência Artificial, seria útil que a integração entre o Gmail e o chatbot da Google fosse ainda mais estreita e eficaz. Já consegues, por exemplo, pedir ajuda para redigir emails (até noutras línguas), solicitar anexos de mensagens específicas ou obter um resumo de todos os emails de um contacto. São funções básicas úteis que dão jeito no dia a dia.
No entanto, a funcionalidade falha quando a tarefa se torna um pouco mais complexa — ou até em coisas que deveriam ser simples. Este é um dos pontos cegos do Gemini.
Seria fantástico se o Google Gemini pudesse realmente ajudar a limpar a tua caixa de entrada. A IA consegue identificar mensagens não lidas, mas depois não lhe podes dar a ordem para as apagar a todas de uma vez. Além disso, a precisão do assistente ainda deixa a desejar. Em testes, o Gemini chegou a inventar números aleatórios de emails não lidos ou a baralhar-se com o remetente da mensagem mais recente numa conversa. Este tipo de erros básicos acaba por minar a confiança que depositamos na ferramenta.
Talvez esteja na altura de começarmos a olhar para o lado e ver o que outras aplicações oferecem, nem que seja mantendo duas contas ativas por uns tempos. O Gmail continua a ser o rei da conveniência, mas sem estas melhorias, começa a parecer um rei sentado num trono um bocadinho gasto.