Porque é que os óculos inteligentes nunca vão ter o seu momento smartwatch

Wesley Akkerman
Wesley Akkerman
25 Junho 2026, 10:55
4 min tempo de leitura
Traduzido e adaptado por Mafalda Vieira Santos.

A expectativa é que gigantes como a Apple, a Samsung e a Google venham a revolucionar o mercado com os óculos inteligentes, tal como o Apple Watch e o Pixel Watch fizeram no mundo dos relógios. No entanto, esta comparação não faz muito sentido.

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Smartwatch vs. óculos

Quando o Apple Watch chegou ao mercado em 2015, os relógios tradicionais estavam a atravessar um momento difícil. As gerações mais jovens quase não usavam relógio, até porque o smartphone já mostrava as horas. Havia, por isso, um enorme mercado por explorar de pulsos vazios, que ansiavam por uma utilidade prática. Foi assim que o smartwatch ganhou força, ao combinar a monitorização de fitness com notificações úteis e um visual moderno. Para muita gente, este relógio inteligente tornou-se rapidamente numa daquelas atualizações diárias indispensáveis, sem as quais já não conseguem viver.

Em contrapartida, o mundo dos óculos encontra-se numa situação completamente diferente, onde não parece haver grande espaço para disrupções. A oferta atual não tem nada de errado. Não só consegues a graduação exata de que precisas, como podes colocar essas lentes nas armações mais arrojadas que quiseres. Além disso, os óculos não são um gadget que adicionas por capricho. São um objeto pessoal, por vezes obrigatório, que acaba por definir o teu rosto. Escolher os óculos certos exige algum cuidado, especialmente quando falamos de estética, ajuste e função.

Bonito e funcional

Existe ainda um fosso enorme entre os utilizadores. Se não precisas de óculos graduados para ver bem, por que razão irias usar voluntariamente uma armação no rosto o dia todo? Uns óculos dão sempre nas vistas e podem até atrapalhar em certos momentos. Por outro lado, para quem é mesmo obrigado a usar óculos, o conforto é uma prioridade absoluta. Óculos tecnológicos pesados, com baterias integradas que precisas de carregar constantemente, representam na prática um enorme retrocesso no conforto em comparação com as armações leves a que já estás habituado.

<h1>Óculos Memomind</h1>

Várias empresas tecnológicas estão agora a tentar resolver este problema de design através de provas digitais e de um punhado de variantes mais modernas, mas a verdade é que isso não será suficiente para muita gente. Mandar fazer lentes graduadas pode ser um processo complexo e caro, que exige conhecimento médico. Custa a crer que estejas disposto a repetir todo este processo sempre que a tua graduação mudar ou quando o hardware dos óculos inteligentes ficar desatualizado. Claro que uns óculos podem ser bonitos, mas, na sua essência, têm de ser sobretudo funcionais.

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IA na tua cara

Para te tentar seduzir como consumidor, gigantes como a Meta, a Google e a Apple estão a apostar em força na inteligência artificial. A esperança destas marcas é que as funcionalidades avançadas de IA te convençam a usar estes dispositivos, justificando assim os enormes investimentos que as próprias empresas estão a fazer. A realidade, porém, é que esta tecnologia ainda não oferece uma verdadeira mais-valia para o utilizador comum. Ter IA no rosto é, no dia a dia, pouco mais do que um truque engraçado, mas não faz absolutamente nada sem o qual não possamos viver.

Pensa um pouco nisto. Com que frequência precisas mesmo de utilizar a pesquisa visual ou traduções em tempo real (ambas possíveis com óculos inteligentes)? E por que razão o teu smartphone e os teus auriculares não poderiam cumprir essas mesmas funções? Até agora, foste ensinado a pegar no telemóvel para fazer estas tarefas e, de repente, terias de te habituar a um gesto completamente diferente. Ter um assistente inteligente permanentemente no nariz não resolve, à data de hoje, nenhum problema urgente do nosso quotidiano, uma vez que os dispositivos que já tens no bolso lidam com isso perfeitamente.

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E aqui está ela outra vez: a privacidade

Para além da mais-valia limitada, existem ainda as questões de privacidade em torno das câmaras integradas. Embora os fabricantes afirmem que estas se destinam apenas a entretenimento e a funcionalidades interativas de realidade aumentada (AR), a verdade é que já estão a gerar alguma resistência na sociedade. As pessoas à tua volta não estão minimamente interessadas em ser constantemente filmadas por uns óculos com câmaras discretas. Além disso, traz-nos uma sensação genuína de desconforto saber que uma empresa tecnológica pode estar a ver, através dos nossos próprios olhos, aquilo que estamos a fazer num determinado momento.

Não nos interpretes mal: se és um fã acérrimo dos óculos inteligentes, deves sem dúvida comprar uns. Mas, por agora, continuam a ser um gadget exclusivo para um nicho que ainda está longe de chegar ao grande público. O hardware e a autonomia da bateria vão certamente melhorar nos próximos anos, mas a barreira à adoção continua a ser simplesmente demasiado alta. Enquanto o smartwatch beneficiou de excelentes condições de mercado na altura certa, para os óculos inteligentes isto é nadar contra a maré. Não precisamos deles e não resolvem nenhum problema real.