Com o lançamento da Fitbit Air, a Google apresentou também a nova aplicação Health. Como eu e o Sven já concluímos, esta ferramenta pode ser muito útil, mas o Google Health Coach ainda tem muito a aprender. A solução? A Google tem de parar de reciclar regras rígidas e usar Inteligência Artificial (IA) a sério para tornar o treinador verdadeiramente inteligente.
Continuar a ler após o anúncio.
Google Health Coach
Quando abordamos este tema, convém começar pelo princípio: qual é a diferença entre IA e automatização? Nos últimos tempos, estes dois conceitos têm sido confundidos com frequência, mas a diferença é fundamental. A automatização executa tarefas repetitivas com base em regras fixas. Por exemplo: “Se alguém dormiu 4,5 horas, recomenda entre 7 a 8 horas de sono na noite seguinte.” É algo pré-programado, que não aprende com os erros e que reage sempre da mesma forma nas situações para as quais foi configurado.
A IA, por outro lado, está mais virada para o “pensar por si própria”. Consegue fazer previsões a partir de dados não estruturados e de situações inesperadas. Além disso, adapta-se ao contexto e torna-se mais inteligente à medida que processa mais informação. No fundo, percebe o que lhe estás a dizer. Por exemplo, se disseres ao Google Health Coach que raramente andas numa bicicleta normal e que ele pode assumir que usas sempre uma bicicleta elétrica, ele deveria ajustar-se a isso. Ou então, deveria ser capaz de interpretar o contexto: se o Sven tem uma lesão no pé e quer participar numa longa caminhada daqui a um mês, é frustrante que a IA continue a sugerir que ele vá dar “uma voltinha tranquila”.
A verdade é que, neste momento, o Google Health Coach parece-me muito mais uma ferramenta de automatização do que de IA. Dá a sensação de que não processa realmente aquilo que lhe digo. Se eu lhe explicar que não estive a correr, mas sim a caminhar, o resumo semanal continua a elogiar-me pela corrida, mesmo quando marco a atividade como caminhada na secção de fitness. O mesmo acontece com o ciclo menstrual. Se eu introduzir as datas da minha menstruação e indicar que a mesma já terminou, a aplicação não deveria apresentar um programa semanal pensado para esse período. Afinal, essa fase já passou: temos de seguir em frente, Google Health Coach.
Em teoria, é ótimo que a aplicação tenha o ciclo em conta. O problema é que não ouve de verdade. Se eu disser ao treinador que a menstruação já acabou e que a minha semana não precisa de ser tão relaxada, só nessa altura é que ele sugere aumentar a intensidade. Não chega a essa conclusão por si próprio. E o mais absurdo é que ignora dados concretos que eu própria introduzi. Se o registo do ciclo indica que a menstruação terminou, o coach não tem de me propor uma semana leve. Chegados a este ponto, já nem sequer é falta de IA, é pura falta de lógica.
Continuar a ler após o anúncio.
Parece, portanto, que o AI Health Coach precisava de uma dose extra de inteligência artificial para conseguir pensar um pouco mais além. Seria excelente, por exemplo, poder associar a nossa agenda para que ele soubesse que tipo de dia tens pela frente. Ele até consegue aconselhar bem com base na localização, mas de pouco me serve que planeie uma caminhada matinal quando deveria saber que tenho três reuniões seguidas. É certo que podes avisar no chat que tens uma semana agitada, mas a verdade é que não me apetece estar a rever a minha agenda inteira com ele todas as semanas.
Se essa sincronização fosse uma realidade, o treinador tornar-se-ia verdadeiramente valioso. A IA poderia deduzir que, se fores a um festival, vais provavelmente caminhar muito, dançar e beber álcool, fatores que influenciam o teu bem-estar nesse dia e no seguinte. Ou, se a Google anunciar o Pixel 11 à meia-noite, prever que a tua noite de sono vai ser curta. É exatamente aqui que a IA pode fazer a diferença, alertando-me para coisas em que eu própria ainda não tinha pensado.
Continuar a ler após o anúncio.
Mas, acima de tudo, mais IA tornaria o treinador muito mais credível. Às vezes, ele diz coisas tão estranhas que um pouco mais de inteligência evitaria certamente alguns disparates. Esta manhã, por exemplo, disse-me: “Com apenas 4 horas e 47 minutos de sono, é aconselhável manter a intensidade baixa, mesmo que a tua frequência cardíaca em repouso e a HRV estejam em bom estado. Dá uma curta caminhada ao sol esta manhã para sacudir aquela primeira grosseria da cabeça e retomar o teu ritmo natural.” Garanto-te que não acordo de manhã a ser grossa com ninguém, nem sequer com o Health Coach.
A explicação até é simples: o termo vem provavelmente do inglês grogginess, que descreve aquela sensação de atordoamento e confusão típica de quando se dorme pouco. Ainda assim, este tipo de erros de tradução já deveria estar mais do que resolvido na IA atual, não achas? Não é o fim do mundo e até acho piada ser considerada “grossa” às sete da manhã sem ter dito uma única palavra. No entanto, há momentos em que frustra perceber que o AI Health Coach não dá aquele passo extra. Talvez seja por ainda estarmos numa fase inicial, mas se a Google quer mesmo ser o meu treinador pessoal, a aplicação precisa de aprender a ouvir e de ter acesso à minha agenda. Até lá, parece que é o próprio Health Coach que está a ser um bocado “grosso”.